22.5.10

(contra)Currículo

Eis o conteúdo do primeiro bimestre de minhas turmas de 1o ano. Quemquiser comentar, fique à vontade!

* Perguntar ao outro e falar de si a respeito de:
- nome
- cidade de origem
- idade
- estado civil
- profissão
- coisas que gosta
- coisas que não gosta
- coisas que ama
- coisas que odeia
- coisas/pessoas favoritas

* Vocabulário
- números de 14 a 25
- profissões
- tipos de comida
- tipos de programas de TV
- tipos de filmes
- tipos de música
- esportes

* Aspectos políticos do estudo de inglês como língua estrangeira

*Conversação
- como fazer uma inscrição em um curso

O profressor frustrado

Ao longo do TTC os participantes aprendemos muitas coisas legais pra se fazer em sala de aula. De apresentações de conteúdo baseadas na abordagem comunicativa a jogos super eficientes que só exigiam quadro, giz e criatividade. Entretanto, muitos colegas traziam uma queixa comum: não conseguiam colaboração de suas turmas.

Imagine a situação: você rearranja toda a sua prática de ensino, adota elementos lúdicos, atividades de role-playing, você está ensinando seus alunos da Educação Básica a FALAR inglês, como eles sempre quiseram. Mas a turma não responde. Os alunos nem sequer parecem gratos. Não reconhecem seu esforço, pelo contrário: acusam o professor de não dar mais aula, ficar apenas brincando.

A frustração de um profe nessa situação é grande, não se engane. E eu falo com grande solidariadade aos meus amigos do grupo de formação continuada, que passaram por testes de resistência, de persistência, tiveram muitas crenças confrontadas, descontruídas e reconstruídas, num processo até doloroso. O TTC não foi fácil, mas não porque o curso tem conteúdos difíceis: foi emocionalmente exaustivo. Meus amigos do TTC/grupo de formação são pessoas de muita, muita coragem. Logicamente é de se esperar que a mudança traga frutos. Tanto esforço em vão? Não, gente, isso não é uma opção.

Tem duas questões aí: do mesmo jeito que a mudança na cultura do professor levou 6 meses pra começar a se consolidar, a mudança na cultura do aluno também vai levar tempo. Mudanças culturais levam tempo, Paulo Freire nunca enganou ninguém quanto a isso. O mais importante, acredito, é encarar a sala de aula como um laboratório. Uma aula que dá errado não é o fim dos tempos. É o início de tempos novos.

Lembro de minha primeira aula em cada turma minha este ano. Primeiro a carinha de descrença de meus aluninhos quando eu disse que queria saber o que achavam do ensino de inglês na escola, mesmo que fosse uma opinião ruim. Lembro da carinha de angústia boa, aquela angústia que antecede o fim de uma charada, na nossa primeira aula ministrada totalmente em inglês. Lembro do olhar de desespero na nossa primeira atividade de conversação, quando o português ficou proibido. E quer saber? Eles venceram tudo isso. Aos poucos, passo a passo, imperfeitamente... mas venceram.

Tudo isso exige tempo, paciência, muito, muito planejamento, conhecimento do perfil da turma, elasticidade e respeito pelo limite do aluno. Temos sempre que lembrar que ele só pode superar um desafio de cada vez.


Tem ainda outra questão crucial, mas vou deixar pra outro post, senão vai ficar imenso isso aqui.

8.5.10

Alunos do contra?

Uma amiga minha dizia muito que "aluno é capaz de qualquer coisa. Inclusive de dizer a verdade".

Este ano, na escola, quase todas as minhas turmas são novas pra mim.  Desde o primeiro dia de aula, meu relacionamento com cada uma delas foi muito, MUITO bom. Eu me sentia acolhida, eles se sentiam à vontade, eu tirava uma com a cara deles, eles tiravam uma com a minha, a gente ria, eu propunha desafios dentro de dados contextos e eles se engajavam sem grande resistência, aprendíamos juntos. Tudo dentro de uma convivência pacífica e tranquila.

Em todas as turmas, menos uma.

Esta turma a que me refiro não aceitava tudo de uma vez. Eles resistiam. Me desafiavam. Desafiavam tanto meu conhecimento de LI quanto a fundamentação de minha prática docente - e ainda desafiavam minha autoridade. Cada aula era como um round. A struggle.

Três semanas após o início das aulas, fui pedir ajuda a Lu (pedagoga responsável pela turma em questão). Contei a ela algumas situações e pedi ajuda. "Lu, quando você tiver seu momento com eles você poderia, assim como quem não quer nada, perguntar o que eles estão achando das aulas e da professora de inglês? Eu quero muito entender como eles se sentem em relação a mim, se tem alguma coisa que eu faço que os incomoda, o que eu posso fazer pra melhorar nosso relacionamento conturbado. Preciso muito resolver essa situação - how are they supposed to learn from me if I can't earn their trust?"

Na semana seguinte, o relatório:

"Pri, você está totalmente enganada: eles te adora, te acham superlegal, disseram que nunca tinham estudado inglês na perspectiva funcional (não com essas palavras, né?) e te elegeram tutora da turma."

Alguém aí entendeu?

Um colega me deu uma explicação interessante:

"O fato deles te questionarem não quer dizer necessariamente que eles não gostam do professor. Significa que você os provoca. E que eles sentem confiança suficiente em você para dizerem o que estão sentindo."

Faz sentido, não?

Entendam: eu não acho ruim ser questionada. Adoro alunos resistentes e questionadores - é o que eles DEVEM SER. O que não deve acontecer é o estabelecimento de um vínculo afetivo negativo. E eu sou a adulta, eu sou a professora - EU sou a parte do relacionamento que (espera-se) vai se posicionar de maneira a rever tal vínculo e estabelecer um novo. É minha responsabilidade.

Falando nisso, um aluno do PROEJA fez um comentário de resistência que eu A-DO-REI. Estávamos trabalhando pronúncia quando ele perguntou:

"Professora, se estrangeiro tem sotaque quando fala portugês, por que a gente não pode ter?"

Abri um sorriso deliciado e respondi:

"Pode sim. É meu dever ensinar algum padrão de pronúncia, mas não é sua obrigação adotá-lo."

25.4.10

Livros raros e a conveniência de sua raridade

Pode me chamar de louca e dizer que tenho mania de perseguição: acho muita coincidência que livros extremamente relevantes para a formação crítica do professor (especialmente do de LI) são praticamente impossíveis de encontrar.

O primeiro de minha lista é "A face oculta da escola", de Mariano Fernández Enguita. Esse é o livro que melhor explica a relação entre o modo de produção capitalista e a organização educacional, possibilitando ao leitor uma visão quase de raio X das relações sociais reproduzidas na escola. Foi um divisor de águas em minha formação. O único exemplar que vi (e li) era parte do acervo da biblioteca do Centro de Educação, na UFPE. Havia uns três exemplares e não podiam ser emprestados, porque estavam esgotados havia anos.

O segundo eu também encontrei naquela biblioteca, mas consegui comprar 6 anos depois, via sebo virtual. "Educação libertária" mostra elementos muito interessantes e provocadores do ideário educacional anarquista. O leitor desavisado esbarra na utopia de uma sociedade sem autoridades e deixa passar uma série de questões maravilhosas sobre como essa utopia poderia ser alcançada. "O único caminho para a liberdade é a própria liberdade" é uma frase que tem me servido demais em sala de aula na busca de uma prática docente libertadora (minha relação com meus alunos tende a se afastar da relação vertical per se e, se não atinge a horizontalidade, fica, digamos, diagonal (kkk)).

O terceiro estou descobrindo ainda e não poderei lê-lo na íntegra até vencer a tarefa de comprá-lo: "Linguística Aplicada Crítica" (Alastair Pennycook) parece ser a âncora da criticidade no ensino de LI. Um livro interessantíssimo que eu até agora me pergunto por que nunca foi trabalhado na faculdade. No momento sinto que ele está para o ensino de LI como "Preconceito linguístico" está para o ensino de língua materna: polêmico, transgressor e transformador.

Ah, se esses três livrinhos compusessem a biblioteca particular de cada teacher brasileiro... quantos adotariam o American Headway?

21.4.10

Desconstruindo crenças

segue um trecho bastante importante de minha monografia:
A principal crença que o professor de LI precisa desconstruir é aquela na qual:

o inglês é representado (…) como uma língua universal, uma espécie de língua franca, um meio de comunicação que permite o trânsito para além das fronteiras lingüísticas. Consoante Pennycook (1994, p. 9), a expressão do inglês no mundo é vista como natural, neutra e benéfica: natural porque é resultado inevitável das relações de força globais; neutra porque se subsume que o inglês se desenraizara de seus contextos culturais originais, transformando-se num meio transparente e universal de comunicação; benéfica porque é uma condição para a cooperação e a equidade. O autor desmistifica essa representação, aparentemente apolítica, da mundialidade do inglês como língua neutra.
Tal crença é baseada em todo um arsenal teórico anglocêntrico que é posto em cheque por Renato Ortiz (2004). O autor analisa os trabalhos de diversos autores comprometidos com a aclamação da LI como o melhor e único caminho para a união entre os povos. Acerca disso, o autor afirma que essa idéia é “a afirmação de uma hegemonia travestida de verdade lingüística” (p. 2). Citando Bourdieu, Ortiz comenta que ao se eleger uma dada linguagem como referência em um determinado contexto interacional, “não se trata apenas de se comunicar, mas de reconhecer um novo discurso de autoridade” (Bourdieu, 1982, apud Ortiz, 2004). Enquanto professores de LI não compreenderem de fato que neutralidade é ilusão, estarão reproduzindo em suas salas de aula esse discurso de autoridade e se posicionando a seu favor – e contra a constituição identitária de seu alunado. Principalmente em caso de um alunado à margem do sistema.

20.4.10

MonoLog - parte 2

Minha orientadora maravilhosa linda perfeita salve-salve uhuuul poderosíssima que eu adoro devolveu a minha primeira versão da monô. Com certeza eu vou aceitar todas as sugestões que ela fez, simplesmente porque ela respeita tanto seus orientandos que só dá sugestões pertinentes. #j'adore

Dentre 2919871 coisas para organizar daqui pra junho, vamos tentar incluir a defesa antecipada. Antecipada pro curso, overdue pra minha história acadêmica!

18.4.10

EJA, essa desconhecida

Dar aula pra o público EJA pode ser um grande desafio. Principalmente pra nós, egressos de cursos de licenciatura, que só aprendemos na faculdade a lidar com (pré)adolescentes. Acabo de corrigir uma atividade que havia realizado com todas as minhas turmas (respeitando as características de cada uma).

Foi a turma com maior índice de notas máximas.

Não fico muito animada com isso, não. Tanto pode ser sinal de que compreenderam melhor o conteúdo trabalhado em sala de aula e a natureza da atividade quanto pode indicar passividade e falta de imaginação, ou de coragem para ousar ir além desse conteúdo.

Seja o que for, espero descobrir logo.